





P. Carlos Carneiro, sj
Vozes
Maria Helena Falé
Luís Santos
Seleção das Músicas
Maria Portela
«Silêncio (2009)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Hoje é dia dois de abril, Quinta-feira Santa da Ceia do Senhor.
Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos. Quem poderia imaginar que Jesus reinventaria a sua humanidade e se deixaria inteiro e totalmente vivo no pão e no vinho da nova Páscoa que desejou ardentemente celebrar?! Na eucaristia voltou a nascer para colmatar as nossas fomes e nos encher da sua vida em abundância.
Que a humildade de Jesus configure as nossas histórias, as nossas paixões e desejos, todos os nossos gestos de amor, para que sejam cada vez mais como foram os gestos que hoje celebramos: o lava pés e a eucaristia – gratuitos, livres e puros.
Da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios.
1 Cor 11, 23-26
Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de mim».
Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim».
Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.
Aceitarias ou não o convite de Cristo para celebrar a páscoa do seu povo nesta noite? Nenhum dos convidados poderia imaginar nada do que viveu naquela noite. E se tu fosses um dos convidados? Com quanta alegria te sentarias à sua mesa, te imaginas a comer do mesmo cordeiro e a brindar com Ele e com todos os outros amigos a desproporcionada fidelidade de Deus?! Ninguém estava preparado para viver tudo o que, por amor, Ele fez acontecer naquela noite. Como pode um pedaço de pão ser todo o seu novo corpo? Deixou de se pertencer a si mesmo. Já não é seu, nem para si.
Porque desceu ao meu patamar e me tratou como se fossemos iguais? Porque se apresentou como meu servo, lavando todas as debilidades que me atormentam a alma? Quem sou eu para ficar com Ele na agonia que viveu no jardim das oliveiras, onde, sem pudor e sem vergonha, se deixou ver rebentado de angústia por todo o mal que o mal nos faz. Como pode oscilar entre o cumprir e o fugir aquele que no sofrimento aprendeu a obedecer?
Com a fatalidade vertiginosa dessa noite, entre prisões e traições, julgamentos e rejeições, o Homem-Deus é esvaziado de si, não permitindo que ninguém lhe roube a autoridade de se assumir diante de Pilatos como a Verdade. “Eu sou a verdade”.
Ao comungares Cristo, recebe toda a sua liberdade, a sua memória, toda a sua vontade. Nenhuma missa é repetição da anterior. O pedido “Fazei isto em minha Memória” nunca é uma repetição. De cada vez, é sempre a primeira vez.
Na Ceia do Senhor que hoje celebramos, comungamos e adoramos, recebemos a sua pessoa e toda a sua história. É um memorial vivo que antecipa a nossa participação na sua Eternidade. Comungo porque sou comungado, morro porque não morro, creio porque sou acreditado, desejo porque sou amado. Comungo para ser Aquele que comungo, para continuar a ser eu, sendo menos eu, e para que Ele possa ser tudo em mim. Eu a diminuir e Ele a crescer. Eu a crescer e Ele a diminuir. É esta a nova e eterna Aliança? Como pode o gesto de uma ceia, um pão que se reparte e um vinho que se derrama, abarcar em absoluto o amor todo que há em Deus, o próprio Deus? Como pode o Deus maior estar todo presente num gesto tão pequeno? Que mais podemos esperar de Deus?
Quando o comungares e ficares durante algum tempo com Ele em silêncio e adoração, mistura as tuas lágrimas com as tuas alegrias, une os teus sucessos e os teus fracassos, as tuas esperanças e as tuas frustrações. Enche de nomes (amigos e inimigos) o pão que comungaste, para poderes ser também tu um “outro pão” que se parte e se reparte e nutre todos os “sem Deus”, os “sem casa”, os “sem igreja”, os “sem amor”, os “sem nada”, os “sem ninguém”. E quando te sentires um “sem fé” ou “sem esperança” volta a sentar-te à mesa do memorial desta noite, onde tens sempre lugar, e deixa que Deus chore contigo e te sirva o banquete antecipado do seu Céu.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.