







P. Carlos Carneiro, sj
Vozes
Maria Helena Falé
Luís Santos
Seleção das Músicas
Maria Portela
«Silêncio (2009)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Hoje é dia três de abril, Sexta-feira Santa, dia pascal da Paixão do Senhor.
Celebramos o impensável em Deus, a morte de Cristo, o seu filho muito amado. Beijamos o justo que foi crucificado, assumimos as dores dos absurdos e as fragilidades dos inocentes condenados, despimos todos os altares do mundo para que se descubra toda a pobreza de Deus que nos enriquece. E contemplamos na sua cruz todo o amor que falta à liberdade das nossas densas paixões, das ambições e de todas as formas de poder.
Escuta esta passagem do Livro do Profeta Isaías.
Is 52 13 – 53, 12
“Vede como vai prosperar o meu servo: subirá, elevar-se-á, será exaltado. Assim como, à sua vista, muitos se encheram de espanto – tão desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a aparência de um ser humano – assim se hão de encher de assombro muitas nações e, diante dele, os reis ficarão calados, porque hão de ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido.
Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar, nem aspeto agradável que possa cativar-nos. Desprezado e repelido pelos homens, homem de dores, acostumado ao sofrimento, era como aquele de quem se desvia o rosto, pessoa desprezível e sem valor para nós. Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre si as nossas dores. Mas nós víamos nele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados”.
Sem pressas, contempla o Senhor desfigurado. Cala os ruídos que gritam dentro de ti e escuta o silêncio do Homem que foi crucificado. Guarda os teus olhos para Jesus, fixa o teu olhar no seu olhar e não tenhas medo de ter medo de te comover. No seu rosto podes ver todos os pecados do mundo que quase conseguem esmagar o sonho crente que Deus tem para cada um. Tudo o resto pode esperar.
A cruz é a mais dura de todas as epifanias de Deus. É quase impossível reconhecer um ser humano naquele corpo desfeito, quanto mais reconhecer o próprio filho de Deus. Quem vês tu quando te encontras com Jesus Crucificado? Um homem feito um farrapo, um rei destituído do seu trono, um amigo traído e abandonado, um “inocente” incapaz de se defender nos tribunais falaciosos do seu tempo? Viste como a sua realeza se consagra numa coroa de espinhos? Viste como a sua nudez cobre de pureza a sua humanidade?
Ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. O corpo de Jesus parece mais um verme do que o corpo de um homem. Sobre o corpo irreconhecível de Cristo cai a cobardia de Pedro e de cada um de nós: “Não o conheço”! Como poderia reconhecer Deus no corpo chicoteado de um perdedor vencido?
O corpo de Jesus crucificado e morto é a epifania que revela como Deus quis assumir tudo o que em cada ser humano, por mais sagrado que seja, é precário e se desfaz. O que é belo e incorruptível não é a carne do corpo. Incorruptível é o Amor interminável de Deus que em Cristo beija e faz suas as lepras da nossa humanidade e se consuma numa nova Aliança com o seu sangue. O corpo massacrado de Jesus não ficou destituído de toda a sua dignidade. Permanece inteiro, limpo e livre. Quem vês tu quando rezas o rosto de Cristo sem o brilho fascinante que seduzia as multidões, que curava os rejeitados e perdoava os condenados?
Hoje, neste dia santo, o rosto desfigurado de Cristo pode ser, como já foi para tantos que o procuraram, um rosto-casa, o abrigo onde todos os injustiçados encontraram um amigo e um lugar. Não te queres esconder nas suas chagas? Desejarias entrar e ficar ao lado para jantar na mesa de um condenado? Seguirias tu um homem crucificado, mesmo sabendo que é o filho de Deus? Entregarias tu a tua vida Àquele que “nada quis poder” a não ser oferecer a sua vida e morrer por ti, por mim, por cada um, numa cruz?
Não te parece pouco não dar tudo? Porque não vives a morrer? Não esperes pela morte para morrer. Não deixes que a morte te mate. Mata tu a morte com Amor. Aprende com Cristo a viver, vive como Ele a morrer. A vida não vale pelo tempo que dura, mas pelo amor que despe cada limite da sua vitimização. O Amor não tem cura, mas tudo cura. Deus conquistou a tua liberdade com a entrega do seu filho na Cruz. Ficou ferido para sempre e tu foste redimido. Ele foi crucificado e tu estás salvo. Na cruz, Jesus abriu a porta da tua eternidade. Entra.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.