







P. Carlos Carneiro, sj
Vozes
Maria Helena Falé
Luís Santos
Seleção das Músicas
Maria Portela
«Silêncio (2009)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Hoje é dia quatro de abril, Sábado Santo, dia da Vigília Pascal
A noite tem um poder sedutor que conquistou o coração de Deus. Entre duas noites percorre-se o caminho do mistério de Deus. O definitivo Natal vai acontecer na Noite de Páscoa e a noite de Páscoa é claramente o nosso natal.
E o grito do Aleluia que anuncia a Páscoa do Senhor e nos faz transbordar de Alegria ajuda-nos a aceitar e transformar todos os sábados santos onde a tristeza, a derrota, o absurdo nos sepultam vivos e o desencanto nos faz desistir da vida. A quem nos “agarramos” nestes momentos de abandono e frustração? Como renascemos das próprias cinzas? Não deites fora o teu deserto. Dele nascerá uma madrugada limpa, um dia inteiro para encher de eternidade tudo o que pode ser mais do que terra, limite e tempo.
O lume novo, o círio pascal, a narrativa da páscoa de Israel, a vida de Cristo e a renovação das promessas do batismo garantem-nos que chegou ao fim a “estação” da tristeza, pois fomos “curados nas suas chagas”.
Que Maria de Nazaré atravesse connosco este dia de deserto até chegarmos à noite de todas as esperanças, sabendo como ela tudo esperar sem nada exigir.
Do Evangelho segundo São Mateus.
Mt 27, 54-55]
O centurião e os que estavam com ele de guarda a Jesus, ao verem o tremor de terra e o que estava a suceder, ficaram aterrados e disseram: «Ele era, na verdade, Filho de Deus». Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres, que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para o servirem.
Jesus morreu e o seu corpo jazente desce bondosamente da cruz para ser colocado no colo de Maria, a sua Mãe. Uma crueldade sem anestesia. O ventre que o deu à luz é agora a manjedoura da sua eternidade. Como pode Maria descansar aquele corpo no seu corpo, a quem ninguém, nem na morte, conseguiu roubar a vida que lhe deu? Nada separará Maria do incomensurável mistério da vontade do Pai e dos discípulos que, na hora da verdade, não se atravessaram por Jesus.
Que faz uma mãe quando não pode fazer nada? Impotente, estupefacta, descentrada de si, reza calada o drama do filho abandonado. Deus fez com Jesus o que não permitiu que Abraão fizesse com Isaac. Na cruz, Maria sofreu o apagão da sua vida. Como consegue esta mulher estar de pé, confiar, se Deus lhe abriu fendas, quando lhe devia garantir um chão seguro? Porque é que Deus não poupou Maria, a sua maior aliada, ao parto da cruz de Cristo? A mulher agraciada é agora a mulher abandonada? Não foi só o véu do templo que se rasgou. A fonte secou, a palavra calou-se. E agora? Se a Jesus não lhe quebraram os ossos, a Maria não lhe roubaram o vaso da esperança.
Antes da sepultura ou da veneração dos perfumes, imagino Maria, sem pudor, a encher de beijos o corpo amado do seu filho, esquecida da sua própria dor e da etiqueta própria dos lutos judaicos. O sangue do filho deixou marcas no sudário das roupas com que o veste. Resta-lhe o silêncio como o lugar mais íntimo para os futuros reencontros fora do tempo e da matéria. Maria sabe que o seu filho, que ninguém, não nasceu para terminar num sepulcro.
Quem sabe viver a morte dos que ama sem deixar que a tristeza governe o seu coração? Como se vive com fé a morte de quem se ama?
A cruz traz a cada ser humano uma nova vocação. Cada vocação é um desafio às nossas possibilidades, um enxerto no imaginário das escolhas pré-estabelecidas. Hoje, sábado santo, é o dia certo para fazer minha a vocação que o Filho deu a Maria na Cruz: serás mãe dos meus irmãos. Ser mãe de Jesus parecia ser pouco para as capacidades de Maria.
E assim começou a Páscoa dos novos tempos. Este foi o primeiro sábado da história em que “adorar a Deus” se alargou ao cuidado samaritano que Deus quer proporcionar fraternalmente a cada um. Na páscoa de Jesus nasceu a Igreja “em saída”.
Este é o sábado novo, a noite maior do que todas as nossas expectativas. Há um lume novo para acender nas cinzas da escuridão da paixão.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.