



Textos: P. Vitaliy Osmolovskyy, sj
Tradução: Betânia Ribeiro
Guiões: Elias Couto
Seleção de músicas: Diogo Couceiro, sj
Vozes: P. Paulo Duarte, sj e Teresa Almeida (jornalista e editora da Renascença)
Sonoplastia: José Luís Moreira
«Arvo Pãrt: The collection (2021)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Deves levar-lhe tudo!
Os teus sonhos, os teus sucessos, as tuas alegrias.
E se tiveres pouco de que te alegrar, leva-lhe esse pouco.
E se a tua vida te parecer apenas um monte de fragmentos, leva-lhe os fragmentos.
E se tiveres apenas as mãos vazias, leva-lhas.
As esperanças despedaçadas são a sua matéria-prima; nas suas mãos, tudo se torna bom.
Mestre Eckhart
"Paz" é uma das palavras com mais sentidos em quase todas as línguas. Pode referir-se ao universo, ao planeta, a um estado sem guerra, a uma comunidade, à harmonia entre pessoas e nações, ou ao mundo espiritual da pessoa. A paz é uma existência harmoniosa onde todas as coisas coexistem: entre pessoas, com a natureza ou dentro de nós próprios. Esta perceção e compreensão da palavra "paz" forma-se desde o início da nossa existência. Em vez de um ideal abstrato, a paz deve ser vista como um estado concreto de bem-estar, profundamente ligado às vidas individuais e à harmonia mais ampla da sociedade. Estende-se para além da ausência de conflito, abrangendo um equilíbrio de bem-estar mental, emocional e ambiental, que reflete a harmonia dentro de nós próprios e do mundo que nos rodeia.
Na teologia cristã, a paz (em hebraico: shalom; em grego: eirēnē) tem um significado abrangente. É entendida como um dom de Deus e significa plenitude, harmonia e reconciliação – com Deus, com os outros e consigo mesmo – em vez de apenas a ausência de guerra ou conflito.
No Evangelho de João, Jesus diz: "Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou". A paz que Jesus descreve é um estado de graça enraizado na presença de Deus na vida de uma pessoa, independente das circunstâncias externas e fundamentado na união com Cristo.
Além disso, a paz é um fruto do Espírito Santo. Na Carta aos Gálatas, São Paulo enumera especificamente esta paz como um dos frutos do Espírito: "Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz…". Isto significa que a verdadeira paz nasce no coração de uma pessoa que vive em comunhão com Deus e permite ao Espírito Santo transformar o seu ser interior.
Vale também a pena recordar que a paz é uma forma de reconciliação. Um bom exemplo disso é a reconciliação entre Deus e a humanidade, alcançada através da morte e ressurreição de Jesus Cristo: "Com efeito, Ele é a nossa paz, Ele que, dos dois povos, fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade: na sua carne…". A paz de Cristo é, portanto, a reconstrução do vínculo quebrado entre Criador e criação – a fonte da verdadeira reconciliação entre as pessoas.
Na teologia moral, a paz não é um estado passivo, mas requer uma busca ativa. Envolve o esforço pela harmonia, justiça e perdão, um esforço dinâmico em prol do bem e da construção da comunidade: "Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus".
No sentido último (escatológico), a paz representa um estado de salvação completa – a vida no reino de Deus, onde o sofrimento e a divisão deixam de existir. É a paz eterna com Deus, a plenitude para a qual toda a história da salvação se dirige.
Tendo presentes as tantas dimensões da paz, é bom que nos perguntemos: Será que o meu entendimento da paz promove realmente a paz? É apenas um conceito, uma palavra ou uma teoria? Ou é um modo de vida que exige ação e prática?
Para começar a responder a estas questões, devemos ir além das meras palavras e explorar como a paz pode ser vivida de formas tangíveis. À luz das tragédias que abalaram as nossas comunidades e o mundo nas últimas décadas, refletir sobre o conceito de paz é cada vez mais crucial. O que significa realmente a paz? Se a minha paz me beneficia, também te beneficia? Pode a paz ser imposta? Por exemplo, quando nações maiores forçam nações menores a acordos de paz, devemos questionar: em que princípios se baseia esta paz e como pode verdadeiramente criar raízes nas nossas comunidades?
Estas questões e as suas respostas podem preparar-nos para a oração. Mas antes, vale a pena recordar:
● A paz começa no coração. Não podes rezar pela paz no mundo se não tens paz dentro de ti.
● Rezar pela paz é um convite a Deus para transformar os nossos pensamentos, palavras e ações num espírito de amor, perdão e reconciliação.
● Não se trata apenas de palavras, mas de uma atitude de vida coerente com o Evangelho.
Senhor,
Por vezes sinto-me com muita ansiedade
nos meus pensamentos, no meu coração, no mundo à minha volta.
Acalma-me com a tua luz.
Ajuda-me a respirar na tua presença.
Ensina-me a não temer o futuro,
a não me perder na tristeza ou na raiva.
Dá-me um coração que saiba perdoar,
e olhos que vejam o bem mesmo nas dificuldades.
Que a tua paz me preencha por dentro,
para que eu a possa levar adiante –
nas conversas, na família, nas pequenas coisas do dia a dia.
Tu és maior do que tudo o que me preocupa.
Fica comigo, Senhor,
e faz do meu coração um lugar de paz.
Ámen.