







Textos: P. Vitaliy Osmolovskyy, sj
Tradução: Betânia Ribeiro
Guiões: Elias Couto
Seleção de músicas: Diogo Couceiro, sj
Vozes: P. Paulo Duarte, sj e Teresa Almeida (jornalista e editora da Renascença)
Sonoplastia: José Luís Moreira
«Verso la Gioia (2009)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Como és Tu, ao mesmo tempo, fonte do fogo
e também do orvalho?
Como fazes de nós, humanos, deuses?
Como transformas a escuridão em luz?
Como fazes alguém ascender do inferno?
Como fazes de nós, mortais, imortais?
Como atrais as trevas para a luz?
Como triunfas sobre a noite?
Como iluminas o coração?
Como nos transformas inteiramente?
Como te tornas um connosco?
Como nos fazes filhos de Deus…?
Como é possível que te abrace dentro de mim e, no entanto, te veja espalhado nos céus?
A paz é um valor mais frequentemente discutido no contexto da política, das nações e das guerras. No entanto, a verdadeira paz não nasce nas salas de conselho ou nos campos de batalha – surge mais profundamente no coração e na alma de cada pessoa. Só encontrando a paz interior é que alguém a pode trazer ao mundo. A paz pessoal é o fundamento sobre o qual se constrói a harmonia entre as pessoas. É no silêncio do coração, na relação com Deus e consigo mesmo que começa aquilo que mais tarde pode irradiar para os outros. O Evangelho mostra repetidamente que a paz interior não é fruto de um estado de conforto externo. É fruto da fé, do perdão e do amor.
Para a pessoa, a paz não é apenas a ausência de medo ou ansiedade. É, acima de tudo, a confiança em Deus e a reconciliação consigo mesma. Jesus disse: "Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou". Estas palavras demonstram que a paz de Cristo é algo mais profundo do que uma sensação momentânea de segurança – é uma harmonia interior que nenhuma dificuldade exterior pode destruir. Uma pessoa cujo coração está em paz perdoa, não procura vingança e não deixa que a raiva guie as suas ações. No Sermão da Montanha, Jesus abençoa os "pacificadores", dizendo: "Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus". A paz interior torna-se, portanto, não apenas um dom, mas também uma tarefa – um apelo para construir o bem à sua volta. Uma pessoa assim, que encontra força na fé e na oração, pode permanecer pacificada mesmo no sofrimento. Cristo, que, perante a morte na cruz, manteve a paz e perdoou aos seus perseguidores com as palavras: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem", é o modelo mais elevado de paz interior – um amor mais forte do que a raiva e o medo.
A paz de que o Evangelho fala não é um dom fácil ou superficial, nem meramente um estado do mundo. É, acima de tudo, um estado da alma. Requer esforço diário, oração e autoaperfeiçoamento. Uma pessoa que consegue encontrar a paz no seu coração torna-se um instrumento do amor de Deus num mundo cheio de caos e incerteza. É no coração de cada um de nós que começa a transformação do mundo – só aqueles cujos corações estão em paz podem dá-la aos outros.
Durante os nossos esforços, trabalho e busca pela paz – especialmente em situações e circunstâncias difíceis – precisamos muitas vezes de aquietar a mente e estar atentos às nossas emoções e sentimentos. O objetivo não é vermo-nos livres deles, mas sim aprender a viver com eles e não deixar que nos consumam. Estes sentimentos podem incluir:
Ansiedade (medo do futuro), que cria tensão e nos impede de aceitar a incerteza que faz parte da vida.
Raiva (em relação aos outros, ao destino, a nós próprios). Não é má em si mesma, mas quando guardada no interior, é venenosa.
Culpa e vergonha, que podem inibir a autoestima.
Arrependimento e relutância em deixar ir, o que não nos permite viver a tristeza ou a perda, podendo manter-nos presos ao passado.
Falta de autoaceitação: se não me aceito com as minhas limitações e fraquezas, posso começar a procurar paz "noutro lugar".
Outro desafio à nossa paz reside no modo como reagimos a acontecimentos difíceis, como guerras ou conflitos. Claro que é complicado manter a paz interior durante situações tão drásticas. No entanto, Jesus oferece uma forma de paz que é independente das circunstâncias externas – mesmo no meio da guerra. A questão é se estou aberto, ou se estou a tentar abrir-me a Ele nesses momentos. É também essencial abster-se de responder ao mal com o mal: "Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem". São Paulo recorda-nos que a verdadeira vitória não está em derrotar o inimigo, mas em não permitir que o mal habite nos nossos corações.
Ser uma bênção de paz: "Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus". A paz não é apenas um sentimento – é uma atitude ativa: construir a harmonia, construir a reconciliação, ajudar os outros. Jesus não diz: "Felizes os que desejam a paz", mas "os pacificadores".
Confiar em Deus no sofrimento (se o enfrentarmos): "Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo". O salmista não diz que não existe um vale tenebroso, mas que Deus está ali presente. A paz nasce da confiança de que não estamos sozinhos, mesmo na hora mais difícil.
Esforçar-se por rezar pelos nossos inimigos: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem". Este é um dos ensinamentos mais difíceis de Jesus, mas é também um dos mais transformadores. Rezar pelos nossos inimigos não justifica as suas ações, mas protege os nossos corações do ódio.
Construir a esperança e ajudar os que sofrem: "Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?" Porque a paz é também um amor ativo. Em tempo de guerra, ter o coração aberto às necessidades dos outros é crucial. Por exemplo, podemos ajudar os refugiados, apoiar os necessitados, mostrar solidariedade, ajudar as vítimas da guerra e amparar aqueles que sofrem.
Confiar que Deus tem a última palavra: "Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte…". A guerra não é o fim da história. Deus promete uma vida nova onde o mal não terá mais poder. Esta esperança permite-nos sobreviver aos dias mais sombrios.
Senhor Jesus, Príncipe da Paz,
num mundo cheio de ruído, medo e dor,
venho a ti para encontrar refúgio.
Disseste: "Dou-vos a minha paz" – então dá-me um coração que não tenha medo,
mesmo quando a tempestade ruge à minha volta.
Ensina-me, Senhor, a vencer "o mal com o bem".
Quando a raiva surgir, dá-me mansidão.
Quando o ódio surgir, que eu cultive a compaixão.
Quando me sentir impotente, dá-me a força do teu amor.
Faz de mim um instrumento de paz,
onde as pessoas têm medo, leva esperança,
onde há dor, leva a cura,
onde há divisão, leva a reconciliação.
Abençoa todos os que sofrem por causa da guerra.
Consola os que choram, fortalece os fracos,
dá sabedoria aos que detêm o poder.
E derrama nos nossos corações a fé
de que chegará o dia de que fala a tua Palavra:
"Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos;
e não haverá mais morte".
Senhor, faz de mim um ser humano de paz.
Ámen.