





Textos: P. Vitaliy Osmolovskyy, sj
Tradução: Betânia Ribeiro
Guiões: Elias Couto
Seleção de músicas: Diogo Couceiro, sj
Vozes: P. Paulo Duarte, sj e Teresa Almeida (jornalista e editora da Renascença)
Sonoplastia: José Luís Moreira
«Henryk Górecki - Symphony No. 3 (2016)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
Ó Senhor, meu Deus,
chamaste-me do sono do nada
apenas porque, no teu imenso amor,
queres criar seres bons e belos.
Chamaste-me pelo meu nome no ventre de minha mãe.
Deste-me sopro e luz e movimento
e caminhaste comigo em cada momento da minha existência.
Estou maravilhado, Senhor Deus do universo,
por cuidades de mim e, mais ainda, por me amares.
Cria em mim a fidelidade que te move
e confiarei em ti e ansiarei por ti todos os meus dias.
Ámen.
A paz ocupa um lugar essencial nas relações humanas. É um estado de equilíbrio interior e respeito mútuo entre as pessoas – um espaço onde te sentes seguro sendo tu próprio, livre do medo do julgamento ou da rejeição. Mesmo que discordes, o respeito pela outra pessoa permanece. Ouves tanto quanto és ouvido. A comunicação é aberta e honesta. Em vez de lutar pela dominação, procuras a compreensão. A malícia e a rivalidade dão lugar à empatia e à cooperação. A paz nas relações nasce da aceitação interior de ti mesmo e dos outros. Quando não há caos dentro de nós, torna-se mais fácil trazer calma às nossas relações. Na prática, a paz nas relações é amor expresso em gestos quotidianos, como a paciência, o perdão, a mansidão e a vontade de comunicar.
Nas relações com os outros, a paz é frequentemente testada por mal-entendidos, fraqueza, orgulho, incapacidade de perdoar, ou pelo pecado, que gera ansiedade. A teologia ensina que a quebra das relações entre pessoas, famílias e comunidades tem as suas raízes no pecado. O pecado separa-nos de Deus, das pessoas e até de nós mesmos. No entanto, é precisamente quando se experimenta a divisão que Deus deseja agir mais profundamente: "Com efeito, Ele é a nossa paz". Cristo não traz apenas a paz, mas Ele é a própria encarnação da paz. Nas suas feridas, no seu silêncio perante a violência que sofreu, no seu perdão na cruz revela-se a verdade mais profunda do amor, um amor que não responde ao mal com o mal, mas o transforma com o bem.
Na fé cristã, a cruz é simultaneamente um símbolo de sofrimento e um lugar de reconciliação, onde a paz é restaurada não através do esquecimento, mas através do perdão. Frequentemente, este caminho passa pela dor interior, que se torna um lugar de encontro com Cristo. Onde uma pessoa experimenta uma ferida, Cristo toca-a com a sua própria ferida, dizendo: "A paz esteja convosco!".
A paz nas relações nem sempre significa a ausência de conflitos; significa geri-los de forma eficaz. Por vezes, significa mansidão durante uma tempestade, paciência face à injustiça e silêncio onde as palavras poderiam causar danos. Tal paz é um testemunho da presença de Deus dentro da pessoa. É uma luz visível para os outros, mesmo quando estes não a compreendem.
Vale a pena considerar as atitudes que podes adotar em relação aos outros – em casa, no trabalho e na sociedade – para promover relações saudáveis e pacíficas. Tais relações não surgem por si mesmas; são o fruto de uma atitude consciente e de trabalho em nós próprios e nos outros. Tais atitudes incluem:
Respeito
Reconhece os limites dos outros, mesmo que não os compreendas.
Não te apresses a julgar; todos carregam a sua própria história.
Lembra-te de que o respeito funciona nos dois sentidos: espera-o e dá-o.
Abertura e Honestidade
Fala sobre as tuas necessidades e sentimentos diretamente, mas com bondade.
Evita palpites e jogos; em vez disso, pergunta e explica.
A honestidade constrói confiança, e sem confiança não há paz.
Empatia
Tenta compreender como a outra pessoa se sente e de onde ela fala.
Por vezes, não se trata de resolver um problema, mas de escutar.
A empatia une as diferenças.
Limites Saudáveis
Não assumas responsabilidade pelas emoções dos outros, mas também não as ignores.
Estabelece o que é e o que não é aceitável para ti; de forma clara e calma.
Respeita os limites dos outros, tal como gostarias que os teus fossem respeitados.
Verdade no Amor
A paz não consiste em fingir que nada aconteceu. Devemos dizer a verdade – mas com um coração embebido em amor e não em raiva: "Antes, testemunhando a verdade no amor".
O perdão é uma decisão deliberada, não uma resposta emocional.
É um ato de vontade que abre espaço para Deus agir. Frequentemente, é só depois do perdão que surge um sentimento de paz.
Bondade e Gratidão
Pequenos gestos, palavras de apreço e gratidão podem transformar uma relação.
Tenta reconhecer as boas intenções; a maioria das pessoas não te quer realmente fazer mal.
Iniciativa de Reconciliação
Não esperes que a outra parte "dê o primeiro passo". Deus toma sempre a iniciativa e convida-nos a fazer o mesmo. O primeiro gesto de bondade abre muitas vezes os corações fechados.
Autorresponsabilidade
Em vez de culpar os outros, pergunta: "O que posso fazer de diferente?"
Assume a responsabilidade pelas tuas emoções e reações – isso dá-te paz e força.
Calma e Paciência
Nem toda a conversa tem de terminar em acordo imediato. Dá tempo a ti e aos outros; amadurecer as relações é um processo. Por outras palavras, o silêncio cura. Por vezes, o melhor passo em direção à reconciliação é o silêncio repleto de presença. Não o silêncio da indiferença fria, mas o silêncio que dá espaço à ação de Deus. É neste silêncio que nasce a compreensão, a mansidão e o desejo de bondade. Deus fala no silêncio, e, na sua palavra, todas as coisas se fazem novas.
O perdão nas relações com os outros nunca é um sinal de fraqueza. O perdão é impulsionado pela abertura e poder do Espírito Santo, que liberta o coração das amarras do passado. Quando perdoo, torno-me parte do plano de redenção de Deus; torno-me colaborador da graça. Portanto, restaurar a paz não pode ser meramente um compromisso externo. É uma conversão do coração; um regresso à verdade, à humildade e ao perdão. Como lembra o profeta Isaías: "Não há paz para os maus ". Por outras palavras, não se trata apenas da relação "eu-Deus", mas também de curar relações com pessoas que o meu egoísmo ou raiva feriram: "deixa lá a tua oferta diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão; depois, volta para apresentar a tua oferta". Este apelo de Jesus mostra que o amor e a paz são inseparáveis; não se pode permanecer em união com Deus se se rejeita um irmão ou uma irmã, porque a verdadeira paz nasce de um coração transformado que permite a Deus agir dentro de si.
Senhor Jesus, que és a nossa paz,
toca as feridas das nossas relações que trazemos nos nossos corações.
Cura o que foi destruído pelas palavras, pela raiva e pelo silêncio.
Ensina-nos a perdoar como tu perdoaste.
Dá-nos corações humildes que não procuram a justificação, mas o amor.
Que a tua paz reine nos nossos lares, comunidades e corações;
a paz que o mundo não pode dar.
Ámen.