







Textos: P. Vitaliy Osmolovskyy, sj
Tradução: Betânia Ribeiro
Guiões: Elias Couto
Seleção de músicas: Diogo Couceiro, sj
Vozes: P. Paulo Duarte, sj e Teresa Almeida (jornalista e editora da Renascença)
Sonoplastia: José Luís Moreira
«Arvo Pãrt: The collection (2021)» © Direitos de autor reservados Appe ID (iTunes)
A paz é geralmente entendida como o oposto da guerra, mas esta definição é insuficiente. Não se trata meramente da ausência de guerra, mas de um estado de espírito, uma forma de ser para uma pessoa que encontrou a harmonia interior consigo mesma e com o mundo. A paz é simultaneamente um facto externo e uma vitória interna. Surge quando uma pessoa deixa de viver em hostilidade consigo mesma e com a existência. Rezar pela paz não é uma fuga do mundo, mas um regresso ao próprio coração da existência humana. Rezar é despertar em si a consciência da presença do sentido, mesmo quando o caos e a destruição nos rodeiam. Assim, a oração não é apenas um ato religioso, mas também um ato de liberdade espiritual: a liberdade de permanecer plenamente humano perante um mundo turbulento.
Nikolai Berdyaev escreveu que o homem foi criado não para a submissão, mas para a criatividade. A própria criatividade é uma forma de oração dirigida não apenas a Deus, mas também ao ser, às profundezas da própria existência. Quando as pessoas rezam pela paz, não pedem simplesmente; criam. Tornam-se participantes na criação da paz, tanto interna como externa. A verdadeira paz começa no coração, onde se dá uma luta secreta entre o medo e a confiança, o desespero e a esperança. Viktor Frankl defendeu que as pessoas são capazes de encontrar sentido mesmo no sofrimento, se o virem como um apelo à transformação interior. A oração pela paz é um ato de encontrar sentido. Ao rezar, a pessoa descobre que a paz não é dada, mas criada por cada momento de escolha.
A paz interior não é a sensação de calma, mas um sentido de responsabilidade. Ela não nega a dor, mas sabe acolhê-la com amor. Uma pessoa que encontrou esta paz não vive na indiferença; pelo contrário, vive em tensão entre a imperfeição do mundo e a sede da sua transformação. A oração torna-se uma forma de ligar estes dois pólos: a dor e a esperança, a limitação e a eternidade. A paz entre as pessoas é uma extensão da paz interior. É impossível ser pacificador se o conflito reina na alma. Cada pessoa carrega dentro de si a fonte da reconciliação ou da divisão. Cada encontro com o outro é sempre um teste. Um teste para saber se podemos perceber o outro não como um instrumento para os nossos propósitos, mas como um mistério.
Viktor Frankl recordou-nos que uma pessoa se torna humana quando se transcende a si mesma, voltando-se para algo ou alguém maior do que ela própria. Portanto, é na oração pela paz que uma pessoa emerge do isolamento, voltando-se para o outro, não como uma ameaça, mas como um irmão ou uma irmã. A paz com os nossos vizinhos exige abertura corajosa e honestidade. É força, não mansidão. É um ato criativo no qual uma pessoa afirma o valor de outra, não um mero compromisso.
O nosso planeta é o palco de um grande drama entre a luz e a escuridão, entre a liberdade e a violência. A nossa era é marcada por profundas contradições: a fome espiritual coexiste com a abundância tecnológica. Os seres humanos são capazes de uma destruição que ultrapassa a sua capacidade de criação. E, no entanto, é precisamente neste caos que o apelo à oração pela paz ressoa como um regresso ao sentido. Berdyaev escreveu que a verdadeira liberdade não reside na arbitrariedade, mas na cocriação com Deus. A oração pela paz é uma manifestação desta liberdade. Não se trata de uma espera passiva pela mudança do mundo, mas de uma participação ativa na sua transformação. Rezar significa dizer "sim" à existência, apesar da dor e da discórdia, e através deste "sim" trazer o sopro do amor ao mundo.
O nosso planeta ainda não é um lugar de paz, mas pode vir a ser, se aprendermos a ser nós próprios: seres humanos capazes de amar, sofrer e criar. A oração pela paz é um ato de fé na humanidade, na sua natureza espiritual e na possibilidade de o sentido ser mais forte do que o mal. A paz não vem de fora. Nasce no coração de quem aprendeu a ouvir o silêncio e a confiar na vida. A oração pela paz é uma viagem interior do medo à liberdade, do caos ao sentido. Requer a coragem de olhar para o mundo não com os olhos do desespero, mas através dos olhos da esperança. Berdyaev disse que o ser humano é "uma criatura trágica, mas não sem esperança". Frankl acrescentou: "O sentido não pode ser inventado, só pode ser descoberto". Assim, a oração pela paz torna-se um ato de revelação, a descoberta dentro de si de uma fonte de sentido que pode transformar o mundo. A oração pela paz começa no silêncio do coração, floresce no cuidado do outro e culmina na esperança de um mundo transformado. Todos os que embarcam neste caminho tornam-se "cooperadores de Deus", portadores da luz que dissipa as trevas.
Quando uma pessoa reza pela paz, reza não só pela humanidade, mas também pelo seu próprio coração, pela capacidade de ser humano, livre, amável e responsável. Este é o segredo da paz: ela começa não com acordos políticos, mas com o silêncio de uma alma que disse: "Faça-se luz" e tornou-se ela própria luz.
Concede-me, Senhor,
que eu comece a ver com outros olhos
todas as coisas;
a discernir e provar os espíritos
que me permitam ler os sinais dos tempos;
a gostar das tuas coisas
e a saber comunicá-las aos outros.